Um dos principais acontecimentos da reta final da eleição presidencial de 2026 ocorreu justamente por aquilo que não aconteceu.

A TV Globo cancelou, na noite desta quinta-feira, 1º de outubro, o último debate entre os candidatos à Presidência antes do primeiro turno, marcado para domingo, 4 de outubro.

O episódio interrompe uma sequência de mais de duas décadas. Desde 2002, a Globo havia realizado o seu debate presidencial de primeiro turno em todas as eleições. As últimas ocasiões em que a emissora não promoveu o encontro foram em 1994 e 1998, em circunstâncias diferentes das registradas agora.

O debate de 2026 estava previsto para começar às 21h30 e parte dos candidatos já se encontrava nos estúdios quando o cancelamento foi anunciado.

A decisão ocorreu depois de uma combinação de ausências e determinações judiciais que modificaram as condições previamente acertadas para o programa.

Lula havia comunicado à emissora que não participaria do debate. Na mesma noite, enquanto o encontro ocorreria na televisão, o presidente participou de uma entrevista no Flow Podcast.

Durante a entrevista, Lula criticou o atual formato dos debates de primeiro turno. Segundo ele, encontros com muitos candidatos, pouco tempo para respostas e disputas por momentos de repercussão nas redes sociais dificultam discussões mais aprofundadas sobre propostas.

A ausência de um candidato, porém, não impediria automaticamente a realização do programa.

A própria história da Globo mostra isso. Em 2006, quando disputava a reeleição, Lula também não participou do último debate do primeiro turno. Naquela ocasião, a emissora manteve o encontro com Geraldo Alckmin, Heloísa Helena e Cristovam Buarque, enquanto o lugar destinado ao então presidente permaneceu vazio.

Em 2026, a situação foi diferente.

Poucas horas antes da transmissão, uma decisão do Tribunal Superior Eleitoral impediu que a Globo mantivesse um púlpito vazio identificado com Lula e também proibiu perguntas direcionadas ao candidato ausente.

Além disso, decisões judiciais envolvendo a participação de candidatos alteraram a composição inicialmente planejada para o encontro.

Após essas mudanças, Flávio Bolsonaro, que estava confirmado no debate, anunciou que também não compareceria. O candidato afirmou que sua decisão ocorreu em reação às determinações judiciais impostas sobre o formato do programa.

Com a mudança do cenário e a ausência dos dois candidatos que ocupavam as primeiras posições nas pesquisas naquele momento, a Globo decidiu cancelar o debate.

A emissora afirmou que decisões recebidas pouco antes da transmissão modificaram condições que haviam sido previamente negociadas com as campanhas e criaram insegurança jurídica para a realização do programa.

Já aconteceu antes?

Embora o episódio seja raro, não é correto afirmar que nunca houve uma eleição presidencial sem debate da Globo no primeiro turno.

Em 1994, a emissora optou por não promover o encontro. Naquele pleito, oito candidatos disputavam a Presidência e as regras eleitorais então vigentes dificultavam a organização de um debate com todos os participantes.

Em 1998, a Globo novamente não realizou debate presidencial no primeiro turno. Naquele ano, 12 candidatos estavam na disputa e a legislação também impunha condições que tornavam mais complexa a organização do programa.

A diferença em relação a 2026 está no momento em que a decisão ocorreu.

Nos anos 1990, a ausência do debate fazia parte do planejamento eleitoral da emissora. Desta vez, o encontro estava anunciado, organizado, com estrutura montada e candidatos confirmados. O cancelamento ocorreu apenas algumas horas antes de sua realização.

Por isso, o episódio de 2026 representa uma situação especialmente incomum na história recente da televisão brasileira.

Por que os debates importam?

Debates eleitorais não são obrigatórios para os candidatos, mas cumprem uma função importante dentro de uma campanha presidencial.

Ao contrário da propaganda eleitoral, em que cada campanha controla sua própria mensagem, no debate os candidatos precisam responder perguntas, confrontar propostas, explicar posicionamentos e reagir às críticas dos adversários.

O eleitor também consegue observar diferenças entre programas de governo e verificar como cada candidato responde quando é questionado diretamente.

Debates não devem ser tratados como única fonte de informação para definir um voto. Planos de governo, entrevistas, histórico político, dados oficiais e propostas também precisam ser considerados.

Ainda assim, o confronto direto oferece uma oportunidade que outros formatos dificilmente reproduzem: colocar candidatos, ao mesmo tempo e sob regras iguais, diante de questões que não controlam integralmente.

Ausência também é uma decisão política

A legislação não obriga um candidato a participar de debates promovidos por emissoras.

Comparecer ou não é uma escolha de campanha.

Para algumas candidaturas, a ausência pode ser vista estrategicamente como uma forma de evitar riscos, confrontos ou situações imprevisíveis. Por outro lado, a decisão também retira do eleitor a possibilidade de assistir ao confronto direto daquela candidatura com seus adversários.

Cabe ao público avaliar politicamente tanto a participação quanto a ausência.

O episódio de 2026 reacende, portanto, uma discussão que vai além da Globo ou dos candidatos envolvidos: qual deve ser o papel dos debates em uma eleição presidencial e até que ponto as campanhas devem assumir o compromisso de participar desses encontros?

No caso deste primeiro turno, uma coisa já está definida: o eleitor chegará às urnas no domingo sem assistir ao tradicional último debate presidencial da maior emissora de televisão do país — algo que não ocorria desde 1998.