São José do Norte voltou a enfrentar o avanço das águas da Lagoa dos Patos nesta terça-feira (11). Mesmo sem registro de chuva local nos últimos dois dias, o nível da lagoa permanece elevado e a água já alcança pontos da cidade, especialmente áreas mais baixas e próximas à margem.
Registros recentes mostram a presença de água em locais próximos à Hidroviária de São José do Norte. A situação está relacionada a um fenômeno que vai além da quantidade de chuva que cai diretamente sobre o município: o comportamento da Lagoa dos Patos é influenciado pela água acumulada em sua extensa bacia hidrográfica e, principalmente neste episódio, pela direção e intensidade dos ventos.
Lagoa pode continuar subindo
Uma análise realizada pela Defesa Civil de Rio Grande em conjunto com o Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos da Universidade Federal do Rio Grande (CIEX/FURG), divulgada na segunda-feira (10), apontou possibilidade de uma nova elevação das águas nos próximos dias.
Na medição realizada pelo linígrafo instalado junto ao CCMAR, em Rio Grande, a cota de inundação utilizada como referência é de 80 centímetros. No domingo (9), o equipamento chegou a registrar cerca de 1 metro, ou seja, aproximadamente 20 centímetros acima desse limite.
A nova projeção técnica indica que o nível pode atingir aproximadamente 1,15 metro, chegando a 35 centímetros acima da cota de inundação utilizada em Rio Grande. A estimativa possui margem de variação de cerca de oito centímetros para mais ou para menos. Embora a medição seja realizada em Rio Grande, o comportamento das águas também serve de referência para acompanhar a situação no extremo sul da Lagoa dos Patos, incluindo São José do Norte.
Por que a água sobe mesmo sem chuva?
A situação pode causar estranhamento para quem observa dias sem precipitação e, ainda assim, percebe a lagoa avançando sobre ruas e áreas próximas à margem.
Isso acontece porque a Lagoa dos Patos funciona como parte de um sistema hídrico muito maior. Águas provenientes do Guaíba e de rios de diferentes regiões do Rio Grande do Sul chegam ao sistema lagunar e seguem em direção ao oceano pela Barra do Rio Grande.
Boletins técnicos divulgados anteriormente já apontavam que chuvas intensas na Bacia do Guaíba contribuíam para manter elevados os níveis do Delta do Jacuí e do próprio Guaíba, acrescentando água ao sistema que posteriormente chega à Lagoa dos Patos.
Além disso, o vento exerce influência direta sobre a distribuição dessa enorme massa de água.
Vento sul dificulta escoamento e empurra água
Segundo o CIEX/FURG, após a passagem do ciclone que atingiu a região entre quinta e sexta-feira, houve uma mudança importante na direção dos ventos.
Inicialmente, ventos do quadrante norte favoreceram o deslocamento da água em direção ao oceano. Posteriormente, a entrada de ventos do quadrante sul alterou esse comportamento, favorecendo a elevação das águas e o transbordamento em pontos mais baixos.
A tendência indicada pelos especialistas é de que a Lagoa dos Patos continue apresentando oscilações enquanto persistirem os ventos do sul. Isso significa que mesmo sem novas chuvas diretamente sobre São José do Norte, o nível pode permanecer elevado ou apresentar novas elevações.
São José do Norte exige atenção
São José do Norte possui uma condição geográfica particularmente sensível às oscilações da Lagoa dos Patos. Localizado entre a lagoa e o Oceano Atlântico, o município possui áreas baixas próximas à margem, que podem ser atingidas quando ocorre uma combinação de nível elevado da água e ventos desfavoráveis ao escoamento.
Por isso, moradores de regiões ribeirinhas e pontos historicamente sujeitos a alagamentos devem acompanhar as atualizações dos órgãos oficiais e observar a evolução das águas nas próximas horas.
O episódio também mostra que uma cheia na Lagoa dos Patos não precisa estar acompanhada de chuva no município atingido. O volume de água recebido de outras regiões, o nível já acumulado no sistema e, especialmente, a ação dos ventos podem fazer com que a água continue avançando mesmo após a melhora do tempo.
Fontes: Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos da FURG (CIEX/FURG), Defesa Civil e Prefeitura Municipal de Rio Grande.







