As novas informações extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, colocaram o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, novamente no centro de uma das maiores crises políticas envolvendo a Corte.

Documentos divulgados após a retirada do sigilo apresentam mensagens que, segundo a análise da Polícia Federal, teriam sido enviadas por Vorcaro a um contato atribuído a Moraes. O conteúdo inclui pedidos de ajuda, tentativa de aproximação com autoridades e até uma pergunta sobre a possibilidade de deixar o país pouco antes da prisão do banqueiro.

As revelações provocaram novos pedidos de impeachment, manifestações de parlamentares e uma nota do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil cobrando apuração rigorosa e imparcial.

Mas, diante da repercussão, uma pergunta domina as redes sociais: Alexandre de Moraes realmente pode perder o cargo?

O que aparece nas mensagens

Segundo o relatório da Polícia Federal, Daniel Vorcaro utilizava o bloco de notas do celular para escrever textos, fazer capturas de tela e enviá-las pelo WhatsApp como mensagens de visualização única.

As conversas propriamente ditas não foram recuperadas integralmente. A PF reconstruiu a sequência a partir de arquivos temporários, registros de utilização do aparelho, capturas de tela e outros elementos digitais encontrados no telefone.

Em uma das mensagens, Vorcaro teria pedido que Moraes reforçasse, junto ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, a necessidade de impedir ações de subordinados contra o Banco Master.

O banqueiro também teria perguntado ao ministro se precisaria deixar o país. A comunicação teria ocorrido poucos dias antes de sua prisão, em novembro de 2025, quando Vorcaro tentava embarcar para Malta.

Em outro registro, o empresário teria demonstrado agradecimento ao ministro, afirmando possuir uma dívida de gratidão com Moraes.

As mensagens ainda precisam ser analisadas dentro de todo o contexto da investigação. A existência de pedidos enviados por Vorcaro não comprova, isoladamente, que Moraes tenha atendido às solicitações ou praticado alguma irregularidade.

Contrato com o escritório da esposa

Outro ponto que aumentou a pressão foi a divulgação de informações sobre o contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia comandado por Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro.

O contrato previa pagamentos estimados em aproximadamente R$ 131 milhões. Conforme informações já divulgadas anteriormente, o escritório teria recebido mais de R$ 80 milhões durante a vigência do acordo.

A análise dos metadados de uma minuta encontrada no celular de Vorcaro indicaria que um arquivo passou por alterações atribuídas a alguém identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.

O escritório explicou que Moraes teria sido consultado apenas para avaliar possíveis impedimentos legais relacionados à contratação. A defesa sustenta que não existiria conflito de interesses porque o ministro não teria atuado em processos relacionados ao Banco Master.

Mensagens encontradas no celular de Vorcaro também mostram preocupação com atrasos nos pagamentos ao escritório. Em uma delas, o banqueiro teria alertado que o não pagamento poderia provocar problemas.

Moraes nega envolvimento

Alexandre de Moraes nega ter recebido as mensagens e classifica como falsa a conclusão de que teria atuado para favorecer Daniel Vorcaro ou o Banco Master.

O ministro também já negou interferência junto ao Banco Central, à Polícia Federal ou à Procuradoria-Geral da República em benefício da instituição financeira.

A atribuição do destinatário das comunicações é um dos pontos centrais da investigação. Embora a Polícia Federal tenha reunido elementos digitais que associariam o contato a Moraes, a defesa contesta essa interpretação.

PGR é chamada a se manifestar

O ministro André Mendonça, responsável por decisões relacionadas à investigação, encaminhou à Procuradoria-Geral da República as informações sobre as mensagens.

A PGR deverá avaliar o material e decidir se existem elementos para solicitar novas diligências, abrir uma investigação específica ou arquivar a questão. O envio dos documentos não significa que Alexandre de Moraes tenha sido denunciado ou se tornado réu.

A apuração deverá esclarecer se houve resposta aos pedidos de Vorcaro, se alguma autoridade foi efetivamente procurada e se ocorreu qualquer interferência concreta nas investigações ou na atuação do Banco Central.

OAB cobra investigação rigorosa

O Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil divulgou nota defendendo uma apuração rigorosa, técnica e imparcial.

A entidade ressaltou que as garantias constitucionais devem ser respeitadas, mas afirmou que ninguém está acima da lei. A OAB de São Paulo e o Instituto dos Advogados de São Paulo também se manifestaram sobre a gravidade das revelações.

A reação amplia o desgaste porque a cobrança por esclarecimentos deixou de estar concentrada apenas em setores políticos ligados à oposição.

Novo pedido de impeachment

O senador Carlos Viana apresentou um novo pedido de impeachment contra Alexandre de Moraes. Outros parlamentares também anunciaram representações e pedidos de investigação.

A Constituição estabelece que cabe exclusivamente ao Senado processar e julgar ministros do Supremo por crimes de responsabilidade.

Um eventual afastamento depende, inicialmente, da abertura do procedimento no Senado. Para a condenação e perda do cargo, são necessários os votos de dois terços dos senadores, correspondentes a 54 dos 81 integrantes da Casa.

Moraes vai cair?

Apesar da forte repercussão, a resposta mais objetiva, neste momento, é: não há queda imediata nem afastamento automático de Alexandre de Moraes.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, evitou responder diretamente sobre o novo pedido de impeachment. Aliados indicam que ele mantém resistência à abertura de um processo contra o ministro.

Sem a decisão política de iniciar o procedimento e sem uma maioria de 54 senadores favorável à condenação, o impeachment permanece improvável no curto prazo.

Isso, porém, não significa que a situação seja politicamente irrelevante. A posição de Moraes poderá se tornar mais delicada caso a perícia confirme de maneira incontestável a troca de mensagens, surjam provas de respostas ou intervenções efetivas e a PGR identifique indícios de crime.

Atualmente, o material divulgado demonstra proximidade e pedidos formulados por Vorcaro, mas ainda não comprova, por si só, que Moraes tenha atendido às solicitações.

A crise também ocorre a poucas semanas das eleições de 2026, quando dois terços das cadeiras do Senado estarão em disputa. Por isso, o caso deverá ser explorado intensamente durante a campanha e pode influenciar a futura composição da Casa responsável por julgar ministros do Supremo.

A queda de Moraes não está definida. Entretanto, as novas revelações aumentam o desgaste, fortalecem a pressão por investigação e transformam o caso Banco Master em um teste para a credibilidade do Supremo, da Polícia Federal, da Procuradoria-Geral da República e do próprio Senado.