Um temporal de grande intensidade deixou um rastro de destruição no Rio Grande do Sul e avançou sobre Santa Catarina entre a noite de domingo (20) e a madrugada e manhã desta segunda-feira (21). Vendavais, chuva volumosa, descargas elétricas e episódios de granizo provocaram destelhamentos, alagamentos, quedas de árvores e postes, bloqueios em rodovias e interrupções no fornecimento de energia, água, telefonia e internet.

No Rio Grande do Sul, ao menos 64 municípios comunicaram ocorrências à Defesa Civil. O balanço divulgado durante esta segunda-feira apontava 624 pessoas desalojadas, quatro desabrigadas e quatro desaparecidas. Os números ainda são preliminares e podem mudar conforme as equipes avançam nos levantamentos e nas buscas.

O episódio também provocou um dos maiores apagões registrados no Estado em 2026. Por volta das 7h, a CEEE Equatorial informava 591 mil clientes sem energia elétrica. Na área atendida pela RGE, eram aproximadamente 303 mil pontos afetados. Somados, os números indicavam cerca de 894 mil unidades consumidoras sem luz nas primeiras horas da manhã.

Ao longo do dia, parte do fornecimento foi restabelecida, mas mais de 717 mil pontos ainda permaneciam sem energia por volta das 15h20. É importante destacar que esses números representam clientes ou unidades consumidoras — residências, estabelecimentos e propriedades — e não necessariamente o total individual de pessoas afetadas.

Também foram registrados problemas no abastecimento de água e nos serviços de telefonia e internet em diferentes municípios. Entretanto, até o momento, não existe um balanço estadual consolidado que permita afirmar quantas pessoas ficaram simultaneamente sem luz, água e comunicação.

Ventos passaram dos 115 quilômetros por hora

A força do vento foi um dos elementos mais destrutivos do temporal. A maior rajada oficial foi registrada em São Jerônimo, onde o vento chegou a 115,8 quilômetros por hora. Em Rio Grande, a velocidade alcançou 113,7 quilômetros por hora, enquanto Porto Alegre teve rajadas de até 106 quilômetros por hora em pontos da Zona Sul.

Na Capital, árvores caíram sobre ruas e residências, vias ficaram bloqueadas e pelo menos 21 cruzamentos apresentaram problemas nos semáforos. Partes das zonas Sul, Leste e Norte registraram alagamentos, falta de energia e dificuldades no trânsito.

O maior volume de chuva divulgado foi registrado em Farroupilha, na Serra Gaúcha, com aproximadamente 171 milímetros. A chuva intensa também provocou elevação rápida de arroios, enxurradas e deslizamentos em áreas de encosta.

Buscas entre caxias do sul e flores da cunha

Uma das ocorrências mais graves foi registrada na região entre Caxias do Sul e Flores da Cunha. Um automóvel com três ocupantes — uma mulher de 43 anos, uma adolescente de 13 e uma criança de quatro anos — foi arrastado pela correnteza.

Equipes do Corpo de Bombeiros iniciaram buscas na região. Em outra ocorrência, um homem desapareceu após cair em uma galeria pluvial em Caxias do Sul enquanto realizava uma limpeza.

As autoridades reforçaram que travessias por pontes cobertas pela água, ruas alagadas ou trechos com correnteza representam alto risco, mesmo quando o nível da água aparenta ser baixo.

Alagamentos em serafina corrêa

Serafina Corrêa voltou a enfrentar alagamentos em diferentes pontos. A chuva forte formou enxurradas e atingiu ruas da área central, com água entrando em residências e estabelecimentos comerciais.

Imagens divulgadas por veículos da região mostraram correnteza em vias urbanas e moradores tentando proteger imóveis. As ocorrências permaneciam em levantamento durante a tarde, enquanto novos alertas de chuva intensa eram emitidos para a Serra Gaúcha.

Igrejinha tem mais de 100 casas destelhadas

Em Igrejinha, no Vale do Paranhana, mais de 100 residências foram destelhadas. Também ocorreram quedas de árvores e postes e danos à rede elétrica. Equipes municipais iniciaram os atendimentos ainda durante a madrugada.

A elevação do Rio Paranhana agravou a situação da Ponte Edmundo Kichler, no Centro. A força da água derrubou um dos pilares da estrutura. A passagem chegou a funcionar de maneira limitada, em sentido único, enquanto técnicos avaliavam a necessidade de interdição total.

Caminhões tombam e casa é destruída em nova santa rita

Em Nova Santa Rita, na Região Metropolitana, as rajadas de vento destelharam pavilhões, quebraram vidraças e provocaram danos em pelo menos três empresas de um condomínio logístico próximo à BR-386.

Dois caminhões estacionados no local foram tombados pelo vento. Um casal dormia dentro de um dos veículos, mas conseguiu sair com a ajuda de trabalhadores e não ficou ferido.

Em outra ocorrência, uma casa na Estrada Passo da Taquara foi destruída. No imóvel estavam uma gestante, seus dois filhos, de três e seis anos, e a mãe da mulher. A família foi atendida pelos bombeiros.

Pelotas tem mais de 200 chamados e risco de desabastecimento

Pelotas esteve entre as cidades mais atingidas da Região Sul. O vento chegou a aproximadamente 89 quilômetros por hora e mais de 200 chamados relacionados ao temporal foram registrados durante a madrugada.

Um galpão que já se encontrava interditado desabou na Rua Marcílio Dias, deixando destroços sobre parte da via. No bairro Colina do Sol, uma parede de pavilhão caiu sobre um restaurante, destruindo parte do estabelecimento.

O Estádio Boca do Lobo também sofreu danos. Além disso, um homem ficou gravemente ferido depois de subir no telhado de uma residência durante o vendaval.

As aulas da rede pública foram suspensas e linhas do transporte coletivo sofreram atrasos e desvios. A falta de energia paralisou estações de tratamento de água e uma das unidades sofreu danos estruturais, levando o Sanep a alertar para a possibilidade de desabastecimento.

Rio Grande registra vento de 113,7 quilômetros por hora

Em Rio Grande, o temporal derrubou árvores e postes, rompeu fios da rede elétrica, destelhou imóveis e danificou estruturas em bairros e localidades do interior.

A cobertura de um posto de combustíveis desabou durante a madrugada. Conforme o Município, os ventos chegaram a 113,7 quilômetros por hora e foram acompanhados de 36 milímetros de chuva em um período de 12 horas.

Litoral Norte tem postes derrubados, destelhamentos e bloqueios

No Litoral Norte, mais de 93 mil clientes ficaram sem energia durante a manhã. Os municípios com os maiores números iniciais eram Capão da Canoa, com 17.234 pontos afetados; Cidreira, com 14.808; Palmares do Sul, com 11.517; Xangri-Lá, com 10.333; Osório, com 7.899; e Balneário Pinhal, com 1.579.

Em Capão da Canoa, árvores e postes caíram e parte da cobertura da rodoviária foi arrancada. Uma estrutura atingiu um ônibus que estava vazio, sem deixar feridos. Na Avenida das Gardênias, em Capão Novo, houve cedimento do asfalto.

A ERS-786, no trecho entre Balneário Pinhal e Quintão, ficou obstruída depois que vários postes caíram sobre a rodovia. Quintão ficou sem energia elétrica desde aproximadamente 3h30, enquanto equipes trabalhavam para liberar a pista e reconstruir a rede.

Os danos na rede elétrica também atingiram localidades próximas de Magistério. A orientação era para que motoristas evitassem os trechos afetados e jamais tentassem mover cabos, postes ou galhos em contato com a fiação.

Em Cidreira, a falta de energia levou a prefeitura a suspender o atendimento ao público durante a manhã. Balneário Pinhal, Palmares do Sul e outras cidades da região também registraram interrupções de energia, internet e telefonia.

Em Xangri-Lá, casas foram destelhadas em Rainha do Mar e postes caíram na Rua Granadas, deixando fios sobre a via. Imbé suspendeu aulas em uma escola de Educação Infantil, enquanto Maquiné interrompeu as atividades escolares municipais.

Estradas bloqueadas em diferentes regiões

Pelo menos seis rodovias federais e cinco estaduais apresentaram bloqueios totais ou parciais em razão da queda de árvores, postes, alagamentos ou deslizamentos.

Além da ERS-786, foram registradas interrupções na ERS-486, em Terra de Areia, e na ERS-407, em Capão da Canoa. As autoridades alertaram que a situação das rodovias poderia mudar rapidamente devido à continuidade da chuva e à elevação de rios e arroios.

Tsunami meteorológico atinge o litoral sul de santa catarina

Em Santa Catarina, a Defesa Civil confirmou a ocorrência de um tsunami meteorológico no Litoral Sul durante a manhã desta segunda-feira.

O fenômeno elevou rapidamente o nível do mar e atingiu áreas de Jaguaruna, Laguna e Imbituba. Ruas foram tomadas pela água e pela areia, barcos foram arrastados e edificações sofreram danos. Até o balanço divulgado durante a tarde, não havia registro de vítimas.

Diferentemente de um tsunami causado por terremoto, o tsunami meteorológico ocorre devido a mudanças bruscas na pressão atmosférica associadas a ventos fortes sobre o oceano. Na região, uma linha de instabilidade produziu rajadas entre 60 e 90 quilômetros por hora, coincidindo com a rápida elevação do nível do mar.

O sistema que provocou os temporais no Rio Grande do Sul avançou sobre Santa Catarina e Paraná, mantendo o risco de chuva forte, vendavais e granizo.

O que provocou o temporal

O episódio foi provocado pelo avanço de uma frente fria associada a uma área de baixa pressão e a uma atmosfera extremamente instável. O contraste entre o ar quente e úmido e a chegada de ar mais frio favoreceu a formação de uma extensa linha de tempestades.

A Defesa Civil e os serviços meteorológicos já haviam alertado para rajadas entre 70 e 100 quilômetros por hora, com possibilidade de velocidades superiores em pontos isolados. Também havia risco de granizo, microexplosões atmosféricas e tornados.

Até o último balanço consultado, não havia confirmação oficial de tornado no Rio Grande do Sul. A análise desse tipo de fenômeno depende da avaliação de imagens de radar, registros em solo e do padrão dos danos encontrados pelas equipes.

Orientação à população

A Defesa Civil orienta que a população evite áreas alagadas, encostas, margens de rios e locais próximos de árvores, postes e estruturas metálicas.

Cabos caídos devem ser considerados energizados. Ninguém deve tocar ou tentar remover fios, postes ou galhos encostados na rede elétrica.

Durante ventos fortes, a recomendação é permanecer em local protegido, longe de janelas, coberturas frágeis e estruturas que possam se desprender. Em caso de emergência, os contatos são 190, da Brigada Militar, e 193, do Corpo de Bombeiros.

Os levantamentos dos prejuízos e os trabalhos de recuperação continuam. Como o cenário ainda está em atualização, os números de atingidos, desaparecidos e interrupções de serviços podem sofrer alterações nas próximas horas.